quinta-feira, 5 de maio de 2022

OS FANTASMAS DA FALTA

 

é à noite que os fantasmas da falta
se instalam nos espaços vagos
e sobre seus traços cegos
nos alertam
cobre a noite com seu manto
os pontos-luz e de visão
e no arco da cidade adivinho
amores outros, que não faltam
ROGEL SAMUEL 

terça-feira, 12 de outubro de 2021

despertar paredes brancas, despertar


 despertar paredes brancas, despertar

despertar paredes brancas, despertar
brancas folhas de papel dormentes
desviar o curso de um regato na encosta
da floresta que canta a sua canção de vento
entornar um pouco desse copo automático
funcionar minhas molas de rascunho pressionadas
retomar o fio da leitura interrompida
iludir o tempo de marcar esta postagem

Rogel Samuel

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

A VIDA SOB O VULCÃO




 A VIDA SOB O VULCÃO

inclemente triste face
as imagens do vulcão
minha irmã indonésia
sofro com esse olhar de soslaio
Não é o Monte Sinabung
que abre a fúria dos deuses da terra
mas o teu recolhimento sereno
sob o lenço virginal
e a tua toca de freira
o pequenino nariz e a boca
e o olhar perdido no mundo
a triste face pequena



rogel samuel

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

MANAUS


Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas


Rogel Samuel


Sete dias serão, Manaus, ó sete amadas,
Por que se integre à terra este cantor.
Ó monstruosas noites desamparadas
De mim se aparte a porta dessa dor.
O espelho dágua ostenta a aranha alada
Que me arrasta o interno aeroplano,
Tresloucada vespa, cristalizada
Inoculando o inferno do engano.
Mas chega de canção, Amor, que neste canto
As finas rimas dessa ladainha
Escondem teus morenos ombros de arpejos.
Ó franca zona! Do Teatro o manto!
Por sete dias tua canção é minha
Na invenção literária dos teus beijos.

sábado, 6 de julho de 2019

BALADA PARA TODO AMOR

BALADA PARA TODO AMOR

Rogel Samuel
Foto de R. Samuel: Biarritz. Em 14 de maio de 2.000.
todo amor é assim, plágio 
cópia de cópia de si, no mesmo
sim na sua visibilidade
no seu sexo. Porque todo amor
é aquela alegre repetição
doença de sonho e de tensão
acontecimento que tanto faz
se desfaz. De que não posso
dizer o que quero, ou o que vale
nem mesmo vale a pena
[O amor, seu troco.]
O caro, o espaço, o caroço
o que sobra o que falta e o falho.
Todo amor falece. Não cresce.
Não é o que se espera.
Dele nada sobra. Além do gozo.
Da calma, da cama, do colo
da palavra: só as notas altas
o cantam. As baladas mais.
A exultação mais plena.
Pois todo amor é outra vez
o mesmo amor. É sempre. É pouco.
E só se estabelece quando
impossivelmente fala a falta
do tolo amor, que já é lembrança
excessiva. Que todo amor costura
um tédio. E tem a surpresa da morte.
Somos suas presas em suas levezas.
Corre o fundo tempo por seus lodos
mostra a sua sede à noite morta.
Quem me crê sabe o que digo:
o amor já vem perdido, pois perder-se
é o destino amante. Dele vem logo
o mote o trote o corte a espada
que o amor tem em seus dentes 
pois sua loucura é o nada.

terça-feira, 18 de setembro de 2018

praça da saudade


praça da saudade 

na pálida luz de uma lembrança amena
no silêncio de um poema de Anisio Melo
me lembro da praça da saudade e nela
tua imagem sob o caramanchão
não há uma saudade ali inscrita
mas uma espécie de sonho, de passado
de águas de uma chuva fina
de sombras de uma festa 

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

casa abandonada


casa abandonada 

as janelas estavam assassinadas
assistiam a tudo
ao mar, às aves, à montanha
nunca mais fechadas
fecundas de vento
arrebatadas de sol
batidas pelo firmamento
e as janelas nunca mais se fecharam
porque não havia ninguém mais lá dentro
porque os poros da casa se abriram
às verdejantes trepadeiras
que cobriam todo passado